De 39,6x34,5 cm. Com 74 fólios. Magnífica encadernação da época, inteira de pele de chagrin verde escuro, com nervos decorados com ferros a ouro, com finos e elegantes ferros a ouro em casas fechadas na lombada, na e nos cantos das pastas, que apresentam belos lavrados em baixo relevo sobre carneira fina. Folhas de guarda em papel marmoreado muito encorpado. Cortes dourados por folha.
Livro constituído por 1 frontispício e 73 reproduções fotográficas, (conjunto completo) com recurso ao processos do colódio húmido, das célebres gravuras de Scaramuzza, destinadas a ilustrar a Divina Commedia, sendo 37 relativas ao Inferno e 36 ao Purgatório. Tudo impresso na frente de cartolinas muito encorpadas. Cada gravura inclui na parte inferior os versos da Divina Commedia, que são referidos em cada uma delas.
Logo em 1874, quando ainda estava em curso a produção das gravuras, já o estudioso Scarabelli explicava as características da obra de Scaramuzza que tornavam a suas obras superiores a todos os outros ilustradores, incluindo Dorè.
Segundo afirma Simone Verde, o pintor revitaliza através de uma estética de caracter místico, a espiritualidade medieval. Scaramuzza destinguiu-se dos outros ilustradores da Divina Commedia, por um profundo conhecimento das três partes da obra, pelo fascínio pela sublime e poderosa visão imaginativa de Dante a ponto de produzir uma obra absolutamente original, pela quantidade de ilustrações e qualidade dos desenhos, caracterizados por uma total fidelidade ao texto poético (como logo destacou Scarabelli, em 1874:19, «Scaramuza mantem-se fiel ao texto, como se o estivesse a traduzir». O pintor oferece uma vasta exegese estética dos elementos narrativos e das alegorias dos cantos, feita com uma técnica de notável complexidade em que a pena vibra, transcrevendo para o olhar a variedade das cenas literárias, a cosmologia dantesca e o seu ordenamento moral, ecoando um universo de analogias com o presente.
Francesco Scaramuzza (Sissa, 1803 - Parma, 1886) Pintor e poeta italiano. Estudou na Regia Accademia di Belle Arti di Parma, onde foi aluno de Antonio Pasini e Giovanni Tebaldi. Depois de ter obtido diversos prémios, venceu um concurso para se aperfeiçoar em Roma. A partir de 1830, em Parma, pintou vários frescos e telas em igrejas da cidade de parma e da província. Em 1836 participou na Exposição Nacional de Milão, com uma obra em que representava o episódio do Conde Ugolino, do Inferno de Dante. O Grande êxito que obteve levou-o a pensar em ilustrar toda a obra. Entre 1836 e 1855, realizou os frescos que decoram a Sala de Dante, da Biblioteca Palatina de Parma.
Em 1853, tendo em vista as comemorações do Sexto Centenário do nascimento de Dante, foi contratado por Luigi Carlo Farini, para realizar obras sobre a Divina Commedia. Apesar de o projecto ter ficado sem efeito, por causa de problemas financeiros de Farini, o pintor continuou a trabalhar e, em 1870, as suas pinturas foram expostas pela primeira vez em Parma. Apesar de, entretanto, terem sido publicadas as ilustrações de Gustave Doré, com grande êxito e divulgação, Scaramuzza levou o seu projecto até ao fim, em 1876, tendo realizado um total de 243 desenhos, Inferno 73; Purgatorio, 120; e Paradiso, 50.
Como poeta é autor de um Poema Sacro com XVII Cantos em oitavas, sob a influência de Ariosto. Scaramuzza pensava ter poderes mediúnicos e considerava, que os seus versos lhe eram ditados, tendo escrito também dramas ditados por Carlo Goldoni. Due canti sulle corporali esistenze dello spirito che fu nell'ultima Dante Allighieri, da lui dettati per introduzione a maggior poema al medio F. Scaramuzza, Firenze, 1875.
Carlo Saccani (flo. 1860 - 1878) Fotógrafo e editor italiano, activo em Parma, desde 1860, primeiro no bairro de S. Tiburzio e depois na Estrada de S. Miguel, n.º 81. Realizou em parceria com Filippo Beghi uma série de fotografias do Arco Triunfal, erigido em honra de Vittorio Emanuele II, em 1860. Produziu trabalhos com recurso à ambrotipia (retratos sobre vidro) até 1864. Tornou-se célebre como editor das reproduções fotográficas das gravuras de Scaramuzza. Em Florença dirigiu a Fotografia Mazza, enquanto o seu irmão Pio Saccani dirigia o estúdio em Parma. Em 1867 produziu uma campanha fotográfica para documentar a participação da Comuna de Parma na Exposição de Paris, que decorreu no referido ano.
Referências:
Rita Marnoto - Dante in Portogallo, uno sguardo etereo. In: Dante nel mondo. Atti del Convegno Internazionale di Studi Academia Ligure di Scienze e Lettere - Palazzo Ducale Genova, 14-15 settembre 2021. Genova, Academia Ligure di Scienze e Lettere, 2022, p. 192-208
Simone Verde - Scaramuzza e il Dante politico del Romanticismo. In: «Scaramuzza. Le tavole per la Divina Commedia» Torino: Società Editrice Allemandi, 2021
Conde de Ameal, 765, com frontespício e 72 gravuras. Foi vendidao pela elevadíssima quantia de 751 mil réis, segundo afirma Rita Marnoto, que a considera quantia astronómica.
Luciano Scarabelli - Confronti critici instituiti [...] alle illustrazioni figurative date alla Divina Commedia dagli artisti Dorè e Scaramuzza. Inferno. Piacenza: Tipografia Giuseppe Tedeschi, 1874.