LISBOA. Na Impressaõ Craesbeeckiana. Anno M. DC. LXXXVIII. [1688] À custa de Antonio Leyte Pereyra, Mercador de Livros. Com todas as Licenças & Privilegio Real.
In 8.º de 20x15,8 cm. Com [viii], 518 [i.e. 520], 32, 24 págs. Encadernação da época inteira de pele, com nervos, ferros a ouro e rótulo vermelho. Cortes das folhas carminados.
Exemplar com leves desgastes na encadernação em especial nas coifas, cantos e charneiras, com vestígios de um etiqueta no pé da lombada. Com assinatura de posse de José da Madre de Deus; com uma nota: «Este Livro achousse na Cella de hum Religioso que por presumir ser da Livraria o poem nella», as duas primeiras em letras coevas e a última em letra do século XVIII.
As páginas preliminares contêm as censuras de Frei Tomé da Conceição, Fr. António de S. Tomás, P. Bartolomeu do Quental, licenças entre elas da Religião assinada pelo P. Alexandre de Gusmão e erratas do primeiro volume. As páginas com numerações próprias no fim da obra incluem o índice das citações da Bíblia e o índice dos assuntos.
Segunda parte da obra Rosa Mística que foi publicada na coleção dos Sermões, que inclui os sermões nº 16 a nº 30, de um conjunto de 30 sobre Nossa Senhora do Rosário, que é a 10ª parte dos Sermões. A obra Rosa Mística é um conjunto de Sermões em louvor da Virgem Maria em que o autor, partindo de várias passagens dos Evangelhos, demonstra as excelências da que foi escolhida para ser Mãe de Deus. Compara a Virgem, primeira entre os Santos, à Rosa primeira entre as flores.
PADRE ANTÓNIO VIEIRA (Lisboa, 1608 - Salvador, Brasil, 1697), considerado por muitos como o maior escritor português, é autor de uma vasta obra em português, latim e italiano, sendo definido lapidarmente, por Fernando Pessoa, como o «Imperador da língua portuguesa». Ao mesmo tempo, desenvolveu com brilhantismo, visão e coragem atividades políticas e diplomáticas na defesa de Portugal durante a Guerra da Restauração, tendo entrado em conflito aberto com a Inquisição, que venceu com o apoio do Papa.
Mais importante ainda foi a sua prolongada e dedicada atividade missionária, em que se distinguiu pela defesa da liberdade dos índios e pela condenação da escravatura, dentro dos moldes possíveis na sua época, pelo que chegou a ser expulso pelos colonos, que tratavam mal os escravos oriundos de África e queriam escravizar os índios, apesar das leis régias em contrário, que obteve de D. João IV e de D. Pedro II.
Vieira conseguiu conciliar um grande realismo político com uma crença arraigada no Sebastianismo, começando por identificar D. João IV, como o «Desejado» do mito Sebastianista, que havia de ressuscitar. Apesar de Vieira dar grande valor e se ter dedicado prolongadamente às suas obras teológicas e proféticas, foram os sermões que o consagraram como grande orador e escritor. A sua forte personalidade e capacidade oratória atraíam multidões para ouvi-lo pregar, mas foi a possibilidade de rever e acompanhar a publicação dos sermões que os tornou obras literárias de grande valor e não apenas o frio registo das suas capacidades oratórias.
Em 1614, Vieira foi para a Baía com a família e ingressou no Colégio da Companhia de Jesus, onde, segundo uma lenda, superou inesperadas dificuldades de aprendizagem, destacando-se pelas suas habilidades intelectuais e linguísticas, o que lhe valeu, em 1625, aos 17 anos, a tarefa de redigir o relatório anual, evento conhecido como o «Estalo de Vieira». Em 1623, iniciou o noviciado, familiarizando-se com a cultura e a língua tupi, e em 1625 fez os primeiros votos, começando a ensinar retórica em Olinda. Ordenado sacerdote em 1634, tornou-se conhecido como orador, realizando a sua primeira pregação oficial na Baía. Em 1641, acompanhou a Lisboa o filho do Vice-rei do Brasil, iniciando uma fase como conselheiro político de D. João IV e missões diplomáticas na Europa. Em Roma, reviu os seus sermões, publicando o primeiro volume em 1679, e recebeu isenção da Inquisição. Regressou ao Brasil em 1681, onde se dedicou até à sua morte à revisão dos sermões e à redação da sua obra teológica, «Clavis Prophetarum».
[EN] This 20x15.8 cm volume features a contemporary full leather binding with raised bands, gilt tooling, a red spine label, and red edges, showing light signs of wear on the spine caps, corners, and hinges alongside historical ownership marks, including the signature of José da Madre de Deus and an 18th-century library note. The book includes preliminary censorships, licenses—notably signed by Father Alexandre de Gusmão—errata, and closing indexes for biblical citations and subjects. Content-wise, it constitutes the second part of Rosa Mística (comprising sermons 16 to 30 on Our Lady of the Rosary, which forms the tenth part of the larger Sermões collection), a theological work that uses gospel passages to praise the Virgin Mary"s excellence, allegorically comparing her to a rose among flowers.
Father António Vieira (1608–1697), famously hailed by Fernando Pessoa as the 'Emperor of the Portuguese language,' was a monumental writer, diplomat, and Jesuit missionary whose brilliant oratory and literary mastery were immortalized through the publication of his widely celebrated Sermões. Throughout his life, which spanned from his early education and intellectual awakening in Bahia, to high-stakes diplomatic missions in Europe as a trusted advisor to King João IV, he combined a pragmatic geopolitical realism with a deep faith in Sebastianism. A courageous defender of indigenous freedom and an opponent of slavery within his era"s constraints, Vieira actively clashed with Portuguese colonists and successfully withstood the Roman Inquisition with papal support. He dedicated his final years in Brazil to composing his theological work Clavis Prophetarum and meticulously editing the written sermons that established him as Portugal"s greatest baroque author.
Ref.:
-Padre António Vieira. Bibliografia. BNP. 1999. Nº 1019.
-Azevedo e Samodães, 3516, II Volume página 743.
-Inocêncio. I, 290.